Se eu pudesse fazer uma única pergunta aos 11.458 atletas que estão na Olimpíada do Rio, esta seria “você prefere ganhar o ouro ou ser eternamente lembrado?”

Não que as duas possibilidades não podem ocorrer simultaneamente, mas lembremos: não é uma regra.  Existem aqueles os quais, aos milhares, possuem a medalha mais cobiçada em suas mãos, entretanto não penetraram no imaginário popular e existem aqueles, raros, os quais, inversamente, foram elevados ao panteão de “heróis”, nacionais ou olímpicos, contudo não subiram no ponto mais alto do pódio.

O maior deles, pelo menos para nós brasileiros, teve a honra olímpica máxima no qual um atleta pode ter: a de acender a pira olímpica, em seu país, aos olhos de bilhões de espectadores, eternizando-se definitivamente na história dos Jogos. E este foi o maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima. E, enquanto historiador, se eu pudesse escolher um, e somente um, atleta olímpico, desde criação dos Jogos Olímpicos da Era Moderna, em 1896, até hoje, eu o escolheria para que me respondesse: “você prefere ganhar o ouro ou ser eternamente lembrado?”  

A resposta soa fácil após doze anos, no entanto, nenhum homem sabe que está fazendo história enquanto a constrói. E se voltarmos aquele 29 de Agosto de 2004, um domingo, perto do meio dia, nem ele, tampouco nós, saberíamos que um herói se faria aos olhos do mundo em apenas duas horas e doze minutos.

Acompanhar nas próximas linhas e imagens a travessia na qual largou um maratonista e chegou um mito. Eis o meu convite a você, leitor.

***

Era o ultimo dia de jogos das Olimpíadas em Atenas, e os brasileiros já consideravam que tinham conquistado sua última medalha naquele domingo pela manha, quando a seleção de Vôlei bateu a seleção italiana por três sets a um. Embora estivesse na décima sexta colocação, a delegação de atletismo estava prestes a voltar da capital grega sem nenhuma medalha. A meta da CBAt para aqueles Jogos era de obter pelo menos dois pódios e igualar o desempenho obtido em Helsinque em 1952 e em Seul em 1988, quando tivera seus melhores resultados. As fichas da CBAt estavam depositadas ao então segundo colocado no ranking mundial de salto triplo, Jardel Gregório, e, novamente, no revezamento 4×1000, formado pelos atletas Cláudio Roberto Souza, Edson Luciano Ribeiro, André Domingos e Vicente Lenílson. Jardel Gregório terminou na quinta colocação no salto, enquanto o revezamento amargou a oitava e última colocação no revezamento, nem de longe repetindo o feito da Olimpíada anterior, quando foram prata em Sidney.

Ou seja, já em clima de despedida para os brasileiros, as câmeras das principais emissoras de televisão estavam voltadas para o último grande evento dos Jogos: a maratona masculina. O percurso era bem próximo dos primeiros Jogos Olímpicos da Era Moderna (em 1896 a prova teve um pouco menos de 40 km), e correr com os pés montados na história era a grande atração do último evento. A sua altimetria oscilava entre longos e curtos aclives e declives, já de conhecimento dos 102 atletas que iniciaram a prova. O grande momento altimétrico da prova estava no quilômetro trinta, onde os dois quilômetros em subida fazia os jornais brasileiros lembrarem-se da semelhança a que era o “terror” dos atletas na São Silvestre: a subida da Brigadeiro Luiz Antônio. No entanto, aos sobreviventes até este ponto, seriam recompensados com percurso em declive nos últimos cinco quilômetros de prova, quando entrariam efetivamente pelas ruas da capital grega até chegarem ao Estádio Olímpico original de 1896, o Panathinaiko, que desde 1982, quando o Estádio Olímpico de Atenas foi construído, passou a ser apenas como sede das grandes conquistas gregas.

A principal adversidade era o clima. O intenso calor do verão europeu assolava Atenas, chegando a temperaturas acima de 30º C durante alguns dias dos Jogos. No dia da maratona masculina, embora bem longe das condições ideais, a temperatura oscilava entre 26 e 28 graus perto da hora da largada, às 18 horas (12 horas no fuso de São Paulo). Sim, poderia ser pior, como foi na Maratona Feminina, uma semana antes, onde a temperatura ultrapassou os 30 graus e inúmeras atletas abandonaram por exaustão, incluindo a favorita e, recordista mundial, a inglesa Paula Radcliffe, exatamente na placa do quilômetro 36. Você deve lembrar-se da imagem abaixo, não?

Percurso duro, clima desfavorável, e o trio brasileiro composto pelos maratonistas André Luiz Ramos, Rômulo Vagner da Silva e Vanderlei Cordeiro de Lima não inspirava otimismo.  A despeito de alguns nomes que se destacaram na década de 80, como José Romão Andrade da Silva, Edson Bergara, Eloi Schleder, Diamantino dos Santos, e os campeões da São Silvestre, José João da Silva e João da Mata, estes eram exceções confirmatórias a regra de não sermos reconhecidos enquanto uma potência no atletismo de fundo. O quadro mudaria, gradualmente ao longo dos anos 90. Em 2004 não seria muito diferente: entre os 102 participantes, 14 tinham tempo abaixo da casa de 2:08, e Vanderlei de Lima, era apenas o décimo oitavo colocado no quesito tempo, com o melhor tempo de carreira de 2:08: 31. Entre seus concorrentes podemos citar o marroquino Jaouad Gharib, então campeão mundial em 2003; o sul coreano Bong Ju Lee, prata nas olimpíadas de 1996; e o veterano o italiano Stefano Baldini, duas vezes medalhistas de bronze em mundiais.

No entanto, todos os olhos marcavam os passos do queniano Paul Tergat. Ele estava sedento por uma medalha de ouro, após bater duas vezes na trave nos 10.000 em Atlanta e Sydney. E sabia que poderia ser sua última participação olímpica, pois já entrava na casa 35 anos de idade. Porém, ele tinha como uma de suas motivações o primeiro sub 2:05 da história das maratonas, obtido um ano antes, em Berlim. A outra era o jejum no qual nenhum queniano, já a principal potência nos 42,195km, jamais tinha vencido a maratonas na história dos Jogos Olímpicos e que seria acabaria na vitória de Samuel Wanjiru em Pequim, em 2008.

(Ops… acho que já soltei um spoiler aqui… se o Wanjiru foi o primeiro ouro, então Paul Tergat bateu na trave de novo? Bem, continuemos…)

Dificilmente alguém entre os competidores tinha a plena certeza de que poderia vencer Paul Tergat, e por isso mesmo a tática observada nos primeiros quilômetros foi a de deixar o queniano ditar o ritmo. Logo, os primeiros dez quilômetros foram realizados em um pace muito lento, a 3’12’’por quilômetro, formando assim  um gigantesco pelotão no qual alguns se aventuravam em pegar a ponta, logo voltavam a se agrupar. Veja um momento onde parecia uma “comitiva”, no qual Paul Tergat era o carro oficial e todos os outros eram seus “batedores”.

O ritmo moroso já incomodava Vanderlei de Lima, mesmo não sabendo exatamente a quanto estava, pois não possuía qualquer tipo de relógio em seu pulso. Sentia-se bem, já começava a liderar, puxando a “comitiva” de 60 corredores ao redor de Paul Tergat, que desfilava pelas ruas gregas.

Mas, espera um minuto.

Com todas as adversidades intrínsecas da prova, um field forte, o que credenciava Vanderlei de Lima a começar a se destacar dos outros corredores?

Para responder isso, vamos deixar a maratona em si um pouco de lado, e falar da trajetória do Vanderlei até aquele fim de tarde em Atenas.

Provavelmente você já sabe bastante da história de vida dele. Nascido no interior do Paraná quis seguir o sonho de ser jogador de futebol, mas o que sobrava de condicionamento, lhe faltava em habilidade. Foi orientado a ser um fundista, a contragosto da família, mas foi evoluindo, ganhando competições menores, até ser convidado lá pelos idos de 1988 para se mudar para São Paulo e treinar pela equipe Eletropaulo. Não, ainda não é aqui que quero chegar. Avancemos para 1992, quando seu então treinador Asdrúbal Ferreira Batista veio a falecer e o jovem técnico, Ricardo D’Angelo “herda” o pupilo de Asdrúbal, Vanderlei de Lima. A carreira de Vanderlei Cordeiro pode ser marcada entre “Antes” e “Depois” de Ricardo D’Angelo. A sinergia entre atleta e seu novo técnico foi tão intensa que até hoje, mesmo já encerrada sua carreira profissional, Ricardo D’Ângelo representa oficialmente Vanderlei de Lima.

E foi seu principal mentor que, acidentalmente, transformou Vanderlei em maratonista. D’Ângelo, querendo que Vanderlei, já com seus vinte e cinco anos, ganhasse mais experiência em nível internacional, sugeriu que aceitasse ser “coelho” da Maratona na cidade francesa de Reims. Era para puxar os líderes até a metade da prova, mas, nas palavras de Vanderlei, ”No meio da corrida eu me senti tão confortável que eu decidi continuar. Primeiro até a marca dos 30 km, em seguida, fui até o final da corrida, ganhando a prova em 2:11:06”.

Daí para frente obtivera resultados importantes, em maratonas como Nova York, Fukuoka, Hamburgo e na Maratona de Tóquio em 1996, onde venceu a prova obtendo seu melhor tempo da carreira, com 2:08:38. Em 1999 foi ouro nos Jogos Pan-Americanos de Winnipeg, no Canadá, feito que se repetiria quatro anos depois, na cidade dominicana de Santo Domingo. Não se destacava apenas nas maratonas, tanto que na principal prova de 10km do país, a tradicional prova 10 km Tribuna FM, na cidade de Santos, ele foi um dos seus recordistas com a marca de 28:01 no primeiro ano em que esta prova foi homologada pela IAAF, em 1997. Já nos anos 2000, venceu uma difícil Maratona de São Paulo em 2002, completando uma prova de dura altimetria, quente em 2:11:19 correndo bom tempo de forma solitária como você pode ver abaixo.

Mais impressionante foi à conquista do seu bicampeonato nos Jogos Pan Americanos de 2003, na cidade dominicana de Santo Domingos, em que encarou uma um clima desumano, que o fez chegar quase em colapso ao final da prova. Ou seja, Vanderlei tinha credenciais sim, para tentar se destacar do marasmo que estava a prova de início. Posto que, correr no calor não era um problema para o brasileiro que vestia o numeral 1234 – a prova do Pan Americano no ano anterior, em Santo Domingo já mostrava sua boa adaptação ao forte calor. Correr em percurso acidentado, igualmente, não era um problema para Vanderlei, o qual tinha vencido a dura Maratona de São Paulo dois anos antes. Tampouco correr sozinho era um incômodo, pois os anos correndo pelas fazendas em Cruzeiro do Norte e suas melhores provas o gabaritavam como um corredor que não tinha a necessidade de correr em pelotão. Sua preparação, a despeito de um acidente de moto que quebrou seu ombro e quase o tirou das Olimpíadas, foi praticamente perfeita, finalizando-a em uma temporada na altitude da cidade colombiana de Paipa.

Contudo, é visível que, não obstante ele tivesse todos os recursos para avançar definitivamente do bloco e fazer a sua própria prova, ele resistia à ideia, e ficou mais dez quilômetros em uma tática cautelosa até demais. A relutância em arriscar é multifatorial, e a mais visível fora do campo do “achismo” era a falta de apoio e seu próprio país. Tinha ao seu lado resultados expressivos há quase uma década e dois títulos pan-americanos. Ia, além disso, era um dos principais atletas de geração que elevou o respeito e admiração dos brasileiros nas provas de longa distância, junto com o recordista mundial Ronaldo da Costa e Luiz Antônio dos Santos, bicampeão da maratona de Chicago em 1993 e 1994, e um dos raros que participavam da terceira Olimpíada em sequência no atletismo. Mas, apesar disso tudo, a imprensa brasileira tinha lá suas sérias dúvidas. A Folha de S. Paulo, em 2004, estampava matéria cuja chamada era Vanderlei Cordeiro de Lima obteve resultados pífios nos Jogos anteriores”. Ela se referia a 47ª colocação na prova em Atlanta e o abandono durante a prova de Sydney, em 2000, ambas por lesão. Aos 35 anos, assim como Paul Tergat, era provavelmente sua última Olimpíada e arriscar é também se expor a uma possível falha e mais um insucesso poderia marcar indelevelmente sua carreira.

Como você viu, havia um corredor da África do Sul querendo acompanhar o Vanderlei de Lima. Na verdade o sul-africano Hendrick Ramaala tentou fazer uma “fuga”, no mesmo ponto que, uma semana antes, a atleta japonesa Mizuki Noguchi, que disparou naquele ponto e venceu a maratona feminina.

Como saiu em disparada e não tangenciava as curvas, era certamente um blefe, e não demorou muito para Paul Tergat e sua comitiva o alcançar. No entanto, como você já deve ter percebido, foi nessa hora que o “de Lima”, como a transmissão oficial o chamava, não apenas alcançou Ramaala como veio a disparar. Não uma fuga inconsequente. O técnico Adauto Domingues, já então preparador do prodígio Marilson Gomes, e amigo próximo de Vanderlei de Lima, comentava a prova pela emissora ESPN, e, ao ver que o paranaense passava a metade da prova em 01:07:23, abrindo quinze segundos a frente do pelotão que já diminuíra para vinte e quatro atletas, indicava qual era a provável  tática de Vanderlei naquele  momento “ele abriu muito, mas é experiente, quer abrir para respirar.” Seu currículo, argumentava, garantia que ele não era inconsequente para disparar. E deixava o alerta ao ver que o pelotão não reagiria à fuga do brasileiro: ele sabe correr sozinho, e “se deixarem ele aí, você pode ter certeza que ele vai até o final”. Mas ainda era cedo para qualquer comemoração.

A imagem acima não pode ser mais clara: é como se Vanderlei de Lima tivesse apertado um botão e, click, saiu para fazer sua prova, arriscar-se. Historiadores não leem mente, então não sabemos o que se passava realmente na cabeça do maratonista brasileiro. No entanto, há um elemento, contado posteriormente, que nos ajuda a entender um pouco mais de tal atitude. Se alguns técnicos preferem deixar seu atleta livre, não indo até a largada com ele, há outros que optam em acompanhá-los, passando algumas últimas recomendações ou palavras de apoio. Um exemplo na própria maratona de Atenas foi do americano o americano Meb Keflezighi, no qual, em seu livro nos conta que seu técnico, minutos antes da largada, lhe perguntou “Você consegue fazer 2:12?”, e, Meb, respondendo positivamente, o seu técnico então profetizou “Então, você conseguirá a medalha”. No caso de Vanderlei de Lima, seu técnico, Ricardo D’Ângelo não era da comitiva olímpica e, logo, não possuía credencial para ir até a largada. Teve que enviar uma carta, que só conseguiu ser entregue por conta de uma terceira pessoa, o treinador João Paulo da Cunha. Concisa, relembrava tática e reforçava os laços que já iam para além do profissionalismo: “Lembre-se da forte subida no 30km. Se você estiver se sentindo bem, arrisque, porque se você não corre o risco, você nunca vai ganhar. Minha confiança em você é imensa, por isso vamos lutar pelo objetivo que tem sonhado por um longo tempo. Não importa o que acontece no final, lembre-se que você sempre terá a minha confiança e amizade, e também lembre que eu admiro você pela pessoa maravilhosa que você é. Então, boa sorte, e vamos tomar uma cerveja juntos após a corrida”. Ou seja, o próprio treinador o incentivava a arriscar.

Será que Vanderlei estava fazendo um “excelente comercial” como fala o narrador da ESPN? Pelo sim ou pelo não, brasileiros já parados diante a TV, se interessavam pela prova. As pessoas nas mesas em seu almoço dominical, sempre tagarelas, silenciaram e viam o “de Lima”, em seu corpo de jóquei, com 1,68m e 52kg, avançar cada vez mais a um pelotão inerte, no qual não acreditava que ele se manteria num pace de 3’09’’ por muito tempo. A prova era só do paranaense, e quase ninguém lembrou-se que André Lima abandonou antes do décimo quilômetro e Rômulo Silva entre o 22º e o 25º km. A tática, segundo Adauto, era perfeita, pois, se algum grupo encostar nele, não seria mais aquela comitiva, mas uns quatro ou cinco atletas, o que era bom, pois ele correria junto e levaria a decisão para o final. A distância entre ele e os outros já passa dos trinta segundos no quilômetro vinte e cinco, e ao mesmo tempo em que o italiano Stefano Baldini, Paul Tergat, Jaouad Gharib já se destacavam do comboio, onde muitos abandonavam ou diminuíam o ritmo por conta do calor, Vanderlei dava uma leve olhada para trás e, ao virar o rosto para frente dá um discreto, porém maroto, sorriso.

Conhecido por suas colocações enfáticas doa em quem doer, Adauto Domingues sabia que muito provavelmente este grupo que já descolava, a passos lentos – diga-se, atrás do brasileiro, provavelmente o alcançaria. Porém, a sua prova era extremamente simbólica no entender do treinador, pois… pois… Melhor você escutar isso dele mesmo, veja só.

Pois é, recado dado e quem têm ouvidos ouça. Curiosamente, dois anos depois da prova em Atenas, o atleta de Adauto, Marilson Gomes, venceria a Maratona de Nova York pela primeira vez em circunstâncias muito parecidas: um percurso duro, o mesmo adversário – Paul Tergat, uma fuga na metade da prova, na qual foi desacreditada pelo desconhecimento dos tempos do atleta. Vanderlei também foi desprezado pelo pelotão. Exemplo disso é que, em seu livro de memória, “Run to Overcome”, Meb Keflezighi, afirma que não sabia que Vanderlei tinha um tempo melhor que o dele em maratonas.

Aliás, falando em Meb Keflezighi, é possível afirmar com que este foi um dos principais, para não dizer, o principal catalisador para que as coisas mudassem naquele evento. Em sua apenas quarta maratona e sofrendo com dores terríveis do ataque de um cão enquanto treinava na cidade Creta, Meb Keflezighi desistira da prova dos 10.000, na qual também se classificara, para se dedicar somente ao último evento dos Jogos. E reconhecia suas limitações enquanto maratonista, tanto que, se todos tentavam acompanhar Paul Tergat, sua estratégia era ir atrás do experiente italiano Stefano Baldini, no qual estava em sua décima sétima maratona e tinha como característica uma forte chegada, ao contrário do brasileiro. Seu treinos para essa maratona, aliás, estão disponível para quem tiver curiosidade, só clicar aqui (http://athleticsillustrated.com/wp-content/uploads/Baldini_training-12.pdf ). Meb Keflezighi fez uma prova cautelosa, ficando num bloco secundário por um bom tempo, passando a metade da prova inclusive junto ao brasileiro Rômulo da Silva. No entanto, com noventa minutos de competição, já tinha alcançado e ultrapassado nada mais, nada menos que Paul Tergat, colocando-se ao lado de Baldini, no qual também sofria as dores de um ataque canino durante sua preparação. Ao chegar ao quilômetro trinta, em um posto de hidratação, o americano, que já puxava o pelotão recebia a informação de um médico da sua delegação na qual, o “de Lima” estava a quarenta e dois segundos de diferença deles! Muito embora achasse bem difícil tirar essa diferença, resolveu apertar o passo, a despeito do pelotão.

Ao passar pelo km 35, Meb Keflezighi foi novamente informado que já estava a “apenas” vinte e oito segundos de Vanderlei, ou seja, se aproveitando do trajeto, que já começava a entrar num leve  declive, era hora de acelerar ainda mais, fechando, junto com Baldini, a passagem dos trinta para os trinta e cinco quilômetros em impressionantes 14’47’’ E, nesse momento, Meb Keflezighi, que alternava posições com Paul Tergat, deixa-o para trás, avançando até Stefano Baldini, e ao alcançá-lo, fala em italiano, “Endiamo primo e segundo” (“Terminemos em primeiro e segundo”). Os olhos de Baldini se esbugalharam e ficaram em choque como se pensasse “Esse negão usando uniforme americano está falando italiano comigo de verdade?”. (Tradução livre de “Is this black dude in a USA uniform actually speaking Italian to me?”)

Na verdade, sim. Meb Keflezighi é de origem Eritréia, país dominado nos séculos XIX e XX pela Itália. Ele foi alfabetizado em italiano e, antes de se mudar para os EUA, morou um tempo na Itália, o que, nos leva a acreditar que não foi uma frase inventada para florear sua biografia.

Acreditando ou não no que americano disse, ambos partiram para a caça a Vanderlei. E se este fazia seu melhor split de 5km em 15’05’’. No entanto, Vanderlei já dava sinais visíveis de cansaço, enquanto Meb Keflezighi puxava Baldini de forma consistente.

No entanto, quanto mais próximo da chegada, mais o ambiente motivacional poderia ser favorável ao brasileiro, que corria sobre a “blue line”, em uma avenida larga, ora indo para perto do canteiro central, ora se aproximando do público. A segurança, por sua vez, era precária, não havendo motos ou um carro-madrinha escoltando o líder, apenas um policial em uma bicicleta no qual, numa certo momento estava uns cinquenta metros dele. Olhando a distancia, de forma racionalizada, ao vídeo, era visível uma falha clara na segurança e que qualquer incidente poderia acontecer.

No Brasil, exatamente às treze horas e cinquenta e dois minutos e quarenta e dois segundos da tarde, espectadores os quais já abriam seus sorrisos para a certeza da conquista uma última medalha dourada e inédita, piscaram para a TV e em seguida viram o horror olhavam aterrorizados para a televisão. Uma pessoa vestida com trajes típica escocesa driblava a péssima segurança e, da outra margem da avenida, onde não havia espectadores, corria em direção ao líder da maratona olímpica, o brasileiro Vanderlei Cordeiro de Lima. Foram oito segundos de horror, nos quais o atleta foi agarrado, empurrado contra a multidão e só colocado de volta à prova graças a um espectador local. Ao sair, um Vanderlei emocionalmente abalado se levantava e saía em fuga, erguendo as mãos e com uma expressão decepcionada, como se dissesse a si mesmo “estragou tudo, estragou tudo”. As imagens abaixo descrevem melhor o cenário.

Quem “estragou” tudo foi ex-Padre Carnelius Horan, que chocou e maculou a Olimpíada aos puxar Vanderlei da avenida, vestindo um kilt vermelho, meios verdes de cano alto, e um cartaz nas costas que dizia: “A segunda vinda está próxima.” Não era a primeira vez que tinha feito algo semelhante: no ano anterior interrompera o Grande Prêmio de Formula da Inglaterra de Formula 1 entrando na pista. A segurança olímpica foi tão ineficiente que foi graças a um grego, o vendedor grego Polyvios Kossivas, quem tirou o brasileiro do embolo com o irlandês e o fez voltar à prova. O “anjo” de Vanderlei só estava na hora certa e no lugar certo graças ao próprio Vanderlei: empolgado com a prova do brasileiro, o grego de 53 anos e ex-jogador de basquete se animou e levou a filha e esposa para assistir a prova in loco.

Foi tudo muito rápido, intenso, e por ter acontecido em uma larga curva, não durou tempo suficiente para que Baldini e Meb Keflezighi vissem alguma coisa. Somente o clima do lugar pós o evento e a rápida chegada em Vanderlei é que fizeram ambos perceberem que algo tinha acontecido. A diferença que o brasileiro construíra a tanto custo, foi tirada de forma estúpida.

Já instalados no novo Estádio Olímpico, onde os campeões da Maratona seriam encaminhados para receber suas medalhas, os dirigentes do COB e do COI viram perplexos o incidente. Não demora muito para que o presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman recebesse a cobrança de um enfurecido Ricardo D’Angelo para que alguma providência fosse tomada. E foi tomada: um protesto formal da delegação brasileira foi feita diretamente ao diretor-executivo do Comitê Olímpico Internacional, Gilbert Felli e ao Presidente do COI, Jaques Rogge. Estão todos chocado com o ocorrido, e já imaginavam que Vanderlei Cordeiro de Lima abandonasse a competição, alegando falta de condições psicológicas e até físicas depois da incompetência da segurança grega. Mas os dirigentes ficaram impressionado com a atitude do brasileiro em sequência.

Vanderlei de Lima, mesmo abalado e correndo em uma biomecânica já deficitária, conseguiu segurar a pressão de um Stefano Baldini e Meb  ensandecidos, correndo abaixo de 2’55’’/km de pace nesse momento, tirando a diferença a passos largos. De forma definitiva ultrapassaram  o brasileiro a altura  do quilômetro trinta e nove, com um pouco mais de  duas horas de prova.

Viram? Vanderlei nem esboçou reação: balançou a cabeça e tentou se mantiver mentalmente na prova. Meb Keflezighi, que incendiou o pelotão, deixava o italiano escapar. Tinha desistido de ir atrás de Baldini, não somente por uma questão de pace: sabendo que alcançaria Vanderlei Lima, no entanto ainda tinha receio de que Paul Tergat tivesse se ressurgido na prova e viesse como um leopardo para cima dele. Segundo conta em “Run to overcome”, Meb só pensava “A medalha está em minhas mãos, não estrague tudo”. Seria a primeira medalha americana na maratona Olímpica masculina desde Frank Shorter.

(E não, Paul Tergat não ressurgiu: terminou na décima colocação.).

Ok, você deve estar se perguntando “Tá, mas se não houvesse o Padre, o Vanderlei iria ganhar?” Provavelmente essa dúvida deve rodar sua cabeça desde o início desse texto. Ou desde 2004. Infelizmente, historiadores não trabalham com o “se”. Em uma maratona, o qualquer prova de longa distância, não dá apenas para explicar um desempenho pelas vias fisiológicas. Há a psique do atleta, tão importante quanto na performance, no entanto, de extrema subjetividade. E é justamente a impossibilidade de respondermos categoricamente a essa simples questão que aumenta a criação de uma mitologia acerca Vanderlei Cordeiro de Lima. É justamente a falta de dados mais precisos que o eleva a categoria do “se não houvesse o padre, iria ganhar”.

Mas, deixando o cientista de lado, proponho um exercício de reflexão pautado nas informações concretas que temos. Stefano Baldini tinha completado os 40 km em 2:04:48, fazendo o split dos 5km em 14’39’’. Se (sim, eu deixei o historiador de lado por um instante, lembra?) o brasileiro mantivesse seu melhor split até esse momento seria o de 15’05’, que ele fez entre o 30 ao 35km, já em declive. Isso esquecendo o padre ou qualquer diminuição de ritmo do ponto de vista fisiológico. Stefano Baldini passou o 30 ao 35km em 14’47’’ e o 35 aos 40 km em 14’39’. Ou seja, o italiano passou do 30km aos 40km em 29’26’’, enquanto Vanderlei provavelmente passaria em 30’10’’, isto é, 44 segundos mais lento. E o brasileiro estava, no quilômetro 30, a 42 segundos a frente do italiano.  Durante a transmissão, Adauto Domingues tinha projetado que chegariam no Vanderlei no km 40 ou 41, o que, diante dos números acima, aconteceria. Aliás, veja a opinião do Adauto Domingues no calor do momento.

No entanto, como disse o treinador de Marilson Gomes, “Que as pessoas iam chegar nele, não tenha dúvidas, só que cada vez que você demora a se aproximar, a expectativa da linha de chegada motiva muito mais o atleta”. Já Bob Larsen*, treinador de Meb Keflezighi é até mais enfático em na biografia do americano, pois ele diz que o incidente com “de Lima” deu possibilidade reais para Meb Keflezighi. Se não tivesse ocorrido, então tanto Baldini quanto Meb Keflezighi precisariam de mais tempo para alcançar o brasileiro. E que, era muito provável que tudo se resolvesse muito próximo do estádio ou mesmo dentro da pista.

* “I think the incident involving de Lima may have hurt Meb’s chances. If it had not occurred, then I think Meb and Baldini would have needed a little more time to catch de Lima. I think they would have stayed together longer, working with each other to catch him. They might have been together close to the stadium or even on the track. I like Meb’s chances in that situation” (Bob Larsen, treinador de Meb Keflezighi).

Por sua vez, Baldini, embora, ao longo do tempo, tenha atenuado seu tom nos últimos anos, inclusive em entrevista feita aqui para o Sergio Rocha, num primeiro momento foi enfático ao dizer que passaria Vanderlei de Lima com acidente ou não. “O que eu penso é que, olhando como a corrida se desenvolvia, analisando os tempos que estávamos fazendo e vendo como terminou claro que eu acho que a maratona seria encerrada da mesma maneira”, o que foi visto como arrogância e desprezo pelo próprio Vanderlei Cordeiro de Lima.

Voltando a História enquanto Ciência, cada vez mais próximo do velho Estádio Olímpico e vendo a noite chegar, tanto Baldini e Meb Keflezighi tiravam seus óculos e bonés e se concentravam para a chegada triunfal. Extremamente concentrado, Baldini não tirou o pé e conclui a prova em 2:10:55, um split negativo de quase quatro minutos. Meb Keflezighi chegou cinquenta e seis segundos depois. No entanto, ninguém mais se importava com isso. Aliás, você lembra-se da imagem abaixo?

Pelo menos aqui no Brasil: todos estavam apreensivos se Vanderlei conseguiria a medalha. E ao entrar na pista e, na segunda volta iniciar seu aviãozinho, com sorriso do tamanho de uma maratona, ele emocionava a boa parte dos espectadores. Seus, 2:12: 11 Era o triunfo sobre a desesperança e contra o horror. Se era bronze ou ouro, para nós, era o de menos.

 Enquanto isso, o Comitê Olímpico Brasileiro exigia que a prova fosse anulada. Obviamente que tal possibilidade não seria deferida pelo COI: seria necessário fazer outra prova que não durariam dez segundos, mas duas horas, e, dado o tempo de recuperação dos atletas, estaria no limite da bizarrice. Mais bizarra, talvez fosse a segunda ideia lançada pelo COB: entregar a medalha de ouro a Baldini e Vanderlei, algo que seria uma covardia com Meb, que não teve influencia no incidente e que ultrapassou o brasileiro faltando ainda três quilômetros para o final. Sim, tirando a imprensa grega e italiana, por motivos óbvios, estavam chocados com que houvera.  Os principais jornais do mundo falavam em “vergonha”, “covardia”, “injustiça” e outros termos para o que houve com Vanderlei, todavia, eles tinham noção de que, infelizmente nada podia ser feito.

Foi quando o COI, rapidamente, teve a ideia mais “salomônica” possível. Vanderlei Cordeiro de Lima, enquanto concluinte daquela maratona, receberia sua medalha de bronze. Mas pelo seu esforço, determinação e carisma ao chegar, mostrando o real espírito olímpico durante a disputa dos Jogos iria receber a Medalha Pierre de Coubertin, um título que só foi dado a seis atletas e que foi anunciado na hora da cerimônia no Estádio Olímpico de Atenas, sob efusivos aplausos. A medalha foi entregue em dezembro do mesmo ano, e entregue pelo “anjo da guarda” de Vanderlei, o grego Polyvios Kossivas.

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Menos o incidente com o ex-padre, menos o “se ele não fosse atacado”: foi a atitude positiva no momento de adversidade que o fez virar uma figura mítica.  A Maratona de Atenas tornou-se um símbolo para Vanderlei, que, doze anos depois reverenciado e aplaudido por 70 mil espectadores no Estádio do Maracanã e por mais de 2 bilhões de espectadores ao redor do mundo, quando acendia a pira Olímpica dos Jogos Olímpicos do Rio em 2016.

Logo depois de acender a pira olímpica, em entrevista, Vanderlei de Lima disse que essa honra era “maior do que qualquer medalha de ouro”.

Minha maior curiosidade, aquela que gostaria de perguntar a todo e qualquer atleta que estão na Vila Olímpica nesses dias em 2016, foi respondida.

Obrigado.

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  • Felipe

    Palmas para o mito Vanderlei! Palmas para o professor Nelton!

  • JC Teixeira

    Texto excelente! Parabéns!!!

  • Jorge Augusto Guimaraes Barroc

    Nelton muito top! Para quem lhe conhece pessoalmente, da para ouvir sua voz ao ler! Excelente está de parabéns!

  • Cesar Augusto Condrati

    Li na revista Contra Relógio desse mês (agosto/2016), mas aqui muito mais detalhado com vídeos, excelente, parabéns.